Meu inferno pessoal

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Acostumada com as reviravoltas que minha vida dá, me percebi novamente em uma queda constante, a tão temida depressão.
Depois de tantos anos me tratando com diferentes medicações, em terapia constante, aprendi a analisar e a perceber os sintomas chegando com força total, a ponto de talvez no meio do caminho, barrar a intensidade da queda, pra que ela se suavizasse.
Não dessa vez. Eu não sei porque razão, mas permiti que a intensidade me tomasse toda. Me vi isolada, chorando dia após dia. Eu já não sentia vontade de levantar de minha cama, de escovar os dentes ou os cabelos, de comer o que quer que fosse, de tomar banho.

Quando você se vê em uma depressão, sua força vital se esvai por todos os poros do seu corpo. Você se esquece da sua higiene e não por porquice, por desleixo, mas apenas porque você já não se sente vivo, então porque se importar com seu corpo se o que importa realmente já está morto? A depressão te toma por inteiro, os seus pensamentos se tornam desconexos, você não consegue mais manter o raciocínio de uma simples frase. A tristeza e o desânimo são constantes, mas a força de vontade de continuar vivendo, essa vai embora com a mesma rapidez com que a depressão se instala.
Eu já não tinha mais forças para manter meu corpo em pé. As lágrimas chegaram ao ponto de cessarem porque já não era possível que elas se libertassem da prisão que eram meus olhos vidrados.
Meu olhar sem vida, meu corpo desfalecendo e os problemas de saúde vindo à tona, um por um no início, e depois todos de uma vez, me fizeram perceber que talvez só a terapia não fosse o suficiente pra me segurar, não dessa vez.
Descobri um problema nos rins, um problema de cunho genético que poderia m e trazer muitos problemas, e uma dor maior do que aquela que eu estava acostumada a suportar todos os meses, como as minhas cólicas. Era um problema que eu teria que tratar pelo resto da vida.
E essa foi a gota d’água que faltava no meu oceano particular de decepções.
Pedi à minha mãe que me levasse em algum psiquiatra, e foi o que ela fez.
Na primeira consulta, eu esperava apenas uma conversa tranquila, explicar todo o meu quadro, falar sobre como eu lido com o transtorno bipolar. Mas foi muito diferente do que eu esperava.
Sim, eu busquei uma nova psiquiatra porque arcar com as despesas de uma consulta particular a cada vez que eu precisasse ir ao consultório dele era, naquele momento, impensável.
A nova psiquiatra então, despida de sensibilidade e responsabilidade para com o outro se viu no direito de jogar uma bomba relógio no meu colo, que tinha o prazo para explodir mais curto do que eu conseguiria suportar: Eu era borderline.
A notícia me tomou de susto e no momento a única reação que eu consegui ter foi a de chorar. Depois de meses as lágrimas voltaram a tomar conta dos meus olhos vidrados.
Ela me passou uma medicação e então iniciei o tratamento. As aulas já haviam começado e eu enfrentaria uma dificuldade que eu não imaginava ter que enfrentar.
Meu inferno pessoal estava apenas começando.

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A tal da resignação

Muito tempo se passou desde a última vez que os escrevi. Muitas coisas me tomaram de surpresa, me colocaram pra baixo, me fizeram ter esse tempo de silêncio.
Parecia que as palavras já não gostavam mais de mim, como parecia antes. Os desabafos se tornaram cada vez menos frequentes, até chegar um ponto em que todo o sofrimento, dores e medos me tomaram de vez, me silenciando.
Mas parece que agora esse tempo acabou. Não o das dores. Mas o do silêncio.
Então retomo minha história de onde parei, mas peço desculpas se algo escapar entre os dedos, afinal foi muito tempo distante de mim.

Logo que voltei para Bauru e fui morar com o meu pai, eu vivia uma guerra interna (como sempre vivi, mas cada vez com maior intensidade), entre continuar vivendo da forma que eu vivia antes, com a liberdade e autonomia que eu tinha, ou seguir as regras que eu conhecia muito bem (afinal foram elas que tomaram conta da minha vida por exatos 21 anos de existência).
Uma amiga fotógrafa havia me convidado para um projeto dela, que a meu ver era muito bacana. A temática era corpos e pessoas diferentes, sendo fotografadas de maneira sensual, mostrando sua beleza, suas características individuais. Eu fiquei receosa e neguei participar por um tempo, pelas inseguranças com meu próprio corpo, pelo medo do conflito com meus pais por conta disso (apesar de achar que não tinha nada demais). E no fim, no meio desse turbilhão e minha vida passando por um momento extremamente frágil, eu topei.
Não sabia o quanto isso iria causar de problemas, e causou. Minha mãe soube das fotos, e por ela ser a pessoa responsável por eu conseguir alugar o apartamento, cancelou tudo. Tivemos uma nova discussão calorosa por telefone e o que parecia ser distante, a esse ponto, tornou-se impossível.
Eu não sei dizer quanto tempo demorou pra que as coisas começassem a mudar, mas posso dizer o exato momento em que isso ocorreu.
Alguns meses depois fui para um festival de música em São Paulo com amigos, e fui roubada. Levaram um celular que sequer tinha valor monetário, afinal nem android ele tinha. Por conta disso, tive que desativar os chips das operadoras, e precisava ir com a minha mãe até a loja da claro.
Nosso encontro esse dia foi decisivo para que algumas coisas mudassem entre nós e começassem a caminhar.
Voltamos a nos falar, conversamos calmamente, e depois de um tempo voltei pra casa dela. Nesse ponto eu comecei a faculdade que tanto queria, psicologia. Voltar a estudar foi o que me deu motivações para enfrentar a minha depressão latente. Mas meus problemas psicológicos e físicos estavam apenas começando, afinal de contas minha vida é uma roda gigante.
Já passei por várias consultas com o psiquiatra e sessões constantes com a psicóloga, mas eu sempre decaía em algum momento e me tomava pelo torpor o qual eu já conhecia muito bem. O fato de já não conseguir escrever, demonstrar aquilo que eu estava sentindo me preocupava. Todo mundo precisa de uma válvula de escape, e apesar do branco criativo, a música costumava me acalentar nos momentos de maior angústia.
Nem mesmo a música, aquela que sempre me pegava pelo colo e me abraçava calorosamente, permitindo que as lágrimas fluíssem naturalmente como deveria ser, pode segurar minha mão. Eu já não sentia mais nada. A vontade de chorar era grande, mas não conseguia. Então minha carcaça foi se fortalecendo a ponto de não permitir que ninguém soubesse como eu me sentia. Talvez isso fosse culpa da minha mania de força.
Pairei perdida pelo ar, perdida em mim mesma, sem conseguir prestar atenção nos passos que eu dava. Dormir era a única vontade, ou talvez a única opção que me restava. Estudar me entorpeceu por um tempo, mas quando entrei em férias parecia que tudo estava desandando novamente. Eu já não tinha uma atividade pra preencher meu tempo e me poupar da autoanálise que eu fazia freneticamente.
Depois de um tempo nessa inércia e praticando a autopiedade, resolvi deixar de me sentir resignada com as minhas dores e frustrações e procurar ajuda.
Mas as coisas sempre podem piorar.

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É preciso respirar

Faz algum (muito) tempo que eu não postava nada aqui. E não postava não porque estava sem ter o que compartilhar com você que me acompanha desde o começo dessa jornada, mas porque eu vivo em um turbilhão de sentimentos e sensações e quando minha cabeça está confusa, não sai uma linha sequer.
E isso, mesmo que eu sinta com tamanha intensidade (como venho sentindo nos últimos tempos) que precise de uma válvula de escape. A minha tem sido a música, porque posso chorar com ela, chorar até não me restar mais forças (ou lágrimas) e eu finalmente cair no sono.
Sim, uma crise depressiva domina minha vida já fazem alguns meses e percebi desde o começo. O que fiz? Permaneci imóvel porque por alguma razão, desaprendi a lutar. Brevemente. Entorpeci-me na dor e permaneci aqui, sem que tentasse nadar contra a corrente de maus agouros e tristeza que me abateu.
Parei minha história no exato momento em que minha vida deu uma volta de 180 graus e eu não consegui respirar.
Voltei pra Bauru com um imenso aperto no peito e me dizendo todo o tempo que foi a escolha errada. Voltei, porque precisava de terapia pra conseguir lidar com os acontecimentos que tomaram-na de sopetão. Desabafava com minha psicóloga. Chorava. Ria. Permanecia quieta por alguns minutos então tudo recomeçava.
Claramente eu não estava nem um pouco bem. Eu REALMENTE precisava de ajuda. Mas era urgente, eu não podia esperar, tinha pressa, queria voltar a viver.
Eu precisava voltar a viver.
Tinha necessidade de conseguir respirar novamente sem que os soluços do choro precedessem esse movimento que é tão automático para algumas pessoas, que é quase imperceptível. Respirar, para mim, havia se tornado uma missão impossível. Era difícil e quase escasso, todo o ar que me entrava e me tomava pelas narinas.
Quando voltei fui morar com o meu pai. Ainda não falava com a minha mãe, nossa relação estava bastante abalada.
Eu não queria morar na mesma casa que o meu pai depois de toda a vida de autonomia que eu tinha em Florianópolis. Uma vez que se vive sozinho, voltar para a casa dos pais é muito mais do que voltar pro ninho, é abrir mão de todas as conquistas e crescimentos pessoais e recomeçar.
Eu estava cansada de ver minha vida zerando sempre e eu juntar forças pra recomeçar. Cansa, sabe? E talvez isso tenha feito minha depressão piorar, mais ainda.
Tivemos diversos conflitos no início. Fui buscar o apartamento pra morar e comecei a correr atrás em todas as imobiliárias. Também comecei a correr atrás de emprego porque eu precisava de um suporte financeiro pra conseguir bancar minhas despesas, mesmo que meu pai tivesse se proposto a me ajudar, era o certo, né?
Eu nem sabia que a confusão só havia começado. Buscar esse apartamento e querer uma certa autonomia era preciso, mas eu não imaginava que muita coisa desencadearia a perda total de tudo isso.Image

Plano B

Eu passei a noite toda em claro pensando se era a melhor decisão a tomar. Quando o dia amanheceu, liguei para o meu melhor amigo e perguntei se eu poderia ir até a casa dele a noite, pra poder conversar com alguém que me ajudasse a clarear as idéias. Eu não queria tomar uma decisão por impulso, porque eu sabia que eu poderia me arrepender.
Conversei com ele, e ele disse que sim, minha decisão era a melhor a ser tomada. Eu não tinha mais condições de ficar sozinha e naquele momento, ele não teria como me dar o suporte que eu precisava. Eu não tinha como fazer um tratamento com psiquiatra e a terapia com uma psicóloga para cuidar da depressão e da síndrome do pânico que estavam dando as caras novamente.
Voltei pra casa inconsolável, chorando muito. Era a coisa certa, mas também era a mais dolorosa. Ir embora era abrir mão de tudo o que eu havia conquistado e voltar à estaca zero, e eu sabia bem disso. Eu voltaria para a casa do meu pai, já que eu e minha mãe não nos falávamos mais. Eu voltaria para a dependência emocional e financeira, que era algo da qual eu fugi.
Decisão tomada era hora de ligar para o meu pai. Liguei e conversamos rapidamente. Estava tudo certo e a única coisa que eu precisava fazer era arrumar minhas coisas, comprar minha passagem de volta e me despedir dos amigos que fiz.
Era a última semana em Florianópolis, minha última semana. Eu não tinha idéia de como me despedir dos novos amigos que fiz seria tão doloroso. Aquela era a vida que eu conhecia agora, e eu estava dando adeus não só à eles, mas a tudo o que eu conquistei. Senti que estava retrocedendo, e de certa forma estava, mas era preciso.
Uma coisa aconteceu alguns dias antes de voltar para Bauru. Algo que me marcou profundamente e que ainda dói muito pensar, e talvez por conta disso eu não consiga dizer o que foi, mas basta dizer que foi uma pessoa muito importante pra mim, que conquistou um grande espaço na minha vida em menos de uma semana. E me despedir dessa pessoa foi algo tão doroloso, que passei dias chorando por conta disso.
Quando cheguei em Bauru meu pai me recebeu muito bem e logo arrumou o quarto em que eu ficaria. Meu plano inicial era passar apenas alguns dias na casa dele até arrumar um trabalho e um lugar pra morar, uma república ou algum apartamento que não fosse muito caro e que eu pudesse bancar com meu salário. Meus pais se propuseram a me ajudar durante um tempo até eu me estabilizar e eu estava ok com isso.
Mas claro, minha vida não é, e nunca foi simples. E as coisas não poderiam ser diferentes com a minha vinda pra Bauru.
O meu inferno pessoal estava apenas começando.  Eu não sabia que precisaria de um plano B.Imagem

Um novo rumo

Logo que deixei o currículo na empresa, não demorou muito eles me ligaram para marcar uma entrevista. Fui até o local e pensei comigo ‘Odeio trabalhar em Telemarketing, mas eu preciso de um emprego…’. Na minha cabeça, era apenas um trabalho temporário, pois queria arranjar algo melhor e que ganhasse mais também, afinal eu iria viver com o dinheiro contado.

Passei na entrevista e na semana seguinte comecei a trabalhar. Meu horário era no período da tarde/noite, então quando eu voltava para casa estava sempre bem escuro.

O bairro que eu morava não era lá dos melhores, porém eu não fazia idéia. Vi muita coisa estranha por lá, mas achei que tinha sido apenas um dia de azar meu.

Apesar de todas as dificuldades, me senti aliviada. Senti que as coisas estavam ruins mas logo iriam melhoras. É sempre assim, a vida é sempre cheia de altos e baixos e como costumam dizer ‘depois da tempestade vem a bonança’. Eu não sabia muito bem se acreditava nisso, porque apesar de ter conseguido um emprego e algo no qual me focar, eu me sentia muito sozinha e triste. Era a depressão batendo a porta novamente. E dessa vez, me dei conta disso rapidamente.

Num domingo, voltando para casa de algum lugar que agora não me recordo bem, eu estava no ponto de ônibus fumando meu cigarro e esperando o horário pra ir embora. Eu estava mexendo no celular, tranquilamente, quando fui surpreendida.

Um homem, ou um moleque, não sei bem dizer, me abordou. Para ser mais exata, ele me empurrou com toda a força que pôde para arrancar de minhas mãos, o meu celular. Eu o mantive firme e então, após me jogar no chão, ele chutou meu braço. Eu fiquei com a marca do chute e os braços doloridos por bastante tempo depois do ocorrido.

Eu dei sorte. Ou azar, não sei bem de  qual ângulo olhar toda essa história. Ele não conseguiu por fim, pegar meu celular, e no exato momento em que ele me bateria de novo, a polícia passou  por onde estávamos e ele saiu em disparada. Fui então até a polícia para que eles pegassem o homem que tentou me assaltar, mas deram de ombros e disseram apenas que não poderiam fazer nada por mim.

Nem preciso dizer o quanto aquilo me revoltou, não é?

Eu estava nervosa, tremendo muito e com medo do bandido voltar de repente pra tentar me assaltar assim que a polícia se afastasse. Eu tinha medo do que ele poderia ter feito comigo por conta da minha reação impensada. Foi automático. Eu apenas reagi e quando me dei conta, percebi que era a maior burrada que eu poderia ter feito.

Fui  o caminho todo para casa pensando nos ‘E se’ que  poderiam ter acontecido. E se ele me matasse. E se ele me estuprasse. E se ele me espancasse. E se ele me sequestrasse. E se ele me machucasse. Tantos ‘E se’ pairando na minha cabeça, e o nervoso tomava conta de mim.

Quando cheguei em casa fui direto  para meu quarto. Eu não queria ver ninguém, eu só queria ficar só. Eu chorei, chorei muito porque aquilo me deixou frágil, me traumatizou. Eu chorei de medo. Eu chorei de raiva.

No dia seguinte eu já não tinha vontade de sair da cama. Dessa vez a depressão estava bem evidente. Eu não quis comer e não  quis ir trabalhar. Eu fiquei dormindo o dia todo porque eu queria esquecer que aquilo tinha acontecido comigo, mas eu sonhava com as várias possibilidades que a minha reação estúpida poderia ter gerado. Eu chorei. Muitas vezes.

Então amarguei essa situação  por 4 dias, até que decidi dar um basta nisso tudo. Eu percebi que as crises de pânico estavam fortes e nem o rivotril que meu melhor amigo tinha arrumado  para mim, estavam resolvendo. Eu sentia meu coração disparar e parecia que eu iria morrer. Quando me dava conta, minhas mãos, minha testa, meus pés estavam suando frio e eu estava com a respiração bastante ofegante. A tontura e a dor no peito não me permitiam levantar. Eu não queria levantar.

Amarguei isso e decidi que era hora de tomar um outro rumo. E  eu tomei.Imagem

A síndrome de Alice

Foi no meu aniversário que as coisas começaram a mudar.
Meus pais me ligaram e aos poucos começamos a retomar o contato. Eles já estavam aceitando melhor que eu havia escolhido continuar vivendo em Florianópolis e que era ali que eu queria construir meu futuro, tentar minha vida. Eles me mandaram dinheiro de presente, o que deu um certo alívio nas minhas finanças e eu pude comprar algumas coisas que eu precisava para minha casa mas que com o dinheiro que eu ganhava trabalhando no café, ainda não tinha conseguido.
Tudo estava indo bem no trabalho, e finalmente com a minha família. Até então.
Eu vim para Bauru por alguns dias, visitar meus amigos que eu não via há algum tempo, e também rever meus pais, já que desde que eu havia me mudado para Florianópolis, mantivemos raro contato. A estadia na cidade foi estranha, tive a sensação de não pertencer mais à esse ambiente, e não via a hora de voltar para o lugar que agora eu chamava de casa. Mas não foi de todo ruim.
No trabalho começaram a surgir alguns pequenos problemas com o caixa. Sempre que eu fazia o fechamento durante meu expediente, nunca faltou um real. Mas o dinheiro começou a sumir, e era sempre quando eu não estava trabalhando. Até então, isso não interferiu no meu trabalho, porque não havia acontecido enquanto eu estava em horário de serviço, e eu sempre tirava todos os relatórios, então tinha garantias de toda a movimentação que acontecia no caixa.
Mas o desconforto de toda a situação e a pressão para descobrir o que estava acontecendo, a longo prazo, começou a me afetar. Comecei a ter crises de gastrite, por conta da alimentação do restaurante, e também por conta do nervosismo. A todo o tempo eu passava mal e precisava ir ao hospital me medicar, por conta das dores fortes de estômago.
Cheguei à um ponto em que precisei pedir socorro para fazer uma endoscopia, porque teria que fazer com um médico particular. E foi aí que eu e minha mãe nos desentendemos. Ela ficou um tanto quanto desconfiada da minha necessidade de dinheiro, disse que eu poderia resolver o problema transferindo meu plano de saúde de Bauru para Florianópolis, discutimos no telefone e desde então paramos de conversar.
E isso foi só o começo de tudo.
Depois de algum tempo, o café fechou e eu me vi sem trabalho. Puxa, não conseguia acreditar que isso estava acontecendo novamente. Parecia que tudo estava encaminhando, que estava dando certo, mas começou a ruir novamente.
Me vi sem chão. E por incrível que pareça, não me desesperei.
Comecei a procurar trabalho, dia e noite, incansávelmente. Mas já era baixa temporada e conseguir um trabalho fixo ficou um pouco mais complicado. Fiz algumas entrevistas, alguns testes, mas não obtinha nenhuma resposta. O dinheiro estava acabando e eu precisava pagar meu aluguel, eu estava ficando sem saída.
Me sentia como a Alice em ‘Alice no País das maravilhas’, presa dentro da casa do ‘Sr. Coelho’, gigante, sem conseguir sair. Comecei a chorar.
A única solução que encontrei foi vender algumas coisas que eu não usava e uma das minhas câmeras fotográficas para conseguir pagar o aluguel. Mas essas coisas levam um certo tempo para serem vendidas, e o dia do aluguel vencer estava chegando.
Eu não tinha o dinheiro todo.
Pedi um prazo, e o dono do imóvel aceitou esperar. Entreguei todo o dinheiro que eu tinha reservado, e pedi alguns dias para conseguir vender a câmera e pagar o resto. E foi assim que combinamos. Mas ele não esperou, me cobrava todos os dias, de forma inconveniente e desrespeitosa. Acabei discutindo com ele.
Agora, eu estava desempregada, e precisava achar um outro lugar pra morar. Nessa hora o apoio do meu melhor amigo foi fundamental para que eu não perdesse completamente a cabeça e a esperança.
Foi então que deixei currículo em uma empresa grande de telemarketing. E foi então que achei uma nova moradia pra mim.
Ufa, agora eu podia respirar novamente, não é? Mas era preciso tomar um fôlego bem maior, porque ainda tinha muita, muita coisa para acontecer.

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Feliz Aniversário!

No começo, eu fiquei feliz por ter conseguido um trabalho na loja. Logo eu estaria estabilizada e reconstruiria minha vida. Finalmente as coisas começariam a se ajeitar, voltaria a estudar. Estava conquistando meu espaço no mundo.
Era o que eu achava. E era isso que estava acontecendo, ao menos por um tempo.
Mas então a loja me transferiu para outra unidade, num novo shopping que estava abrindo no continente. Para quem não sabe, Florianópolis se divide na Ilha e no Continente.
Eu estava morando na Ilha, e iria trabalhar no continente, nesse novo shopping. Até então, tudo bem.
Então começamos a arrumar a loja, a montar o estoque e organizar tudo para a tão aguardada inauguração. Mas o dinheiro do vale transporte e do vale alimentação não caiam na conta nunca. O dinheiro do salário não caia nunca. E eu já não tinha o que comer. Eu não tinha como ir trabalhar. E a cada dia era uma desculpa.
Meu amigo já não tinha como me ajudar, ele também precisava ir trabalhar, ele também precisava comer.
Resolvi pedir socorro para o meu pai, e foi aí que tive uma surpresa. Ele me negou ajuda.
Ele queria que eu voltasse pra Bauru. Ele queria que eu voltasse, que em Bauru eu teria tudo, teria onde morar, onde estudar, o que comer, como me transportar. Eu não queria isso.
Eu me irritei, porque minha felicidade não estava ali, e ele não entendia isso, eu perdi a cabeça e desliguei o telefone, prometi que não voltaria a pedir socorro.
Me desesperei.
Cheguei a caminhar mais de 20km, para não faltar ao trabalho. Mas não tolerei essa situação por muito tempo.
Saí procurando outro lugar para trabalhar e assim que achei, pedi demissão.
Então as coisas melhoraram, e fiquei novamente feliz.
Ninguém merece passar aquela humilhação de não ser paga, de não ter o que colocar na geladeira. Não foi para isso que saí de casa. Mas isso me fez crescer, me fez dar valor à cada centavo que eu tinha em mãos.
Claro, não é de repente que a gente cresce e aprende a dar valor ao dinheiro, não amadurecemos assim do dia pra noite, mas ao menos, foi assim que esse processo todo começou a acontecer.
Mas minha vida ainda estava no começo, e eu ainda tinha muito chão pela frente. E a história com a minha família, ainda tinha muito para acontecer.
Acabei me afastando da minha mãe, acabamos discutindo.
Fui trabalhar num café, como operadora de caixa, nesse mesmo shopping onde trabalhei nessa loja que não me pagou. Lá, fiz muitas amizades com pessoas maravilhosas, que me ajudaram muito, desde o começo.
Eu nunca tinha trabalhado como caixa na minha vida, era uma experiência totalmente nova, e foi muito bom pra mim.
Os primeiros dias foram bem difíceis, me enrolei toda, mas todos tiveram muita paciência comigo e me explicaram direitinho.
Eu tinha uma rotina bastante cansativa, chegava em casa completamente quebrada, tomava um banho, lia um pouco, e como estava sem internet, ou desenhava, ou assistia algum filme, ou logo dormia. E no dia seguinte, acordava cedo e ia trabalhar. E meus dias seguiram assim.
No final de semana, saía com meus amigos que fiz lá, ou até mesmo durante a semana, nas festas da Universidade. Me divertia, não posso reclamar que não fazia nada. De tédio, não morria.
Mas tive dias difíceis, de muita tristeza e solidão. Dias de completo isolamento.
Ficar sem internet é difícil. Você fica sem contato com o mundo, sem contato com o resto dos seus amigos, sem notícia de ninguém, sem ninguém para conversar. É apenas você e seus pensamentos. E aí, você é obrigado a conviver com você mesmo. E foi aí que comecei a entrar em depressão.
No começo, não me percebi nesse processo, pois estava ocupada demais trabalhando e pensando no vestibular.
Mas conforme meu aniversário foi se aproximando, e as discussões com minha mãe foram acontecendo, a tristeza foi se abatendo cada vez mais, eu sentia saudade de algumas amigas de Bauru, saudades do meu avô, saudades da vida que eu levava em Bauru… Mas, não tinha mais volta, eu tinha feito uma escolha e era preciso enfrentar.
Eu fraquejei, várias e várias vezes. Mas eu tinha alguém que estendia sempre a mão e me ajudava a levantar. Mas, o mais importante foi que aprendi a levantar sozinha.
Mas então o meu aniversário chegou. Que data!
Talvez essa tenha sido uma das datas mais difíceis da minha vida, porque foi um conflito interno muito grande. Eu estava brigada com minha família, longe dos meus amigos, longe da vida que eu conhecia, sozinha, numa cidade completamente nova, reconstruindo minha vida do zero, sem nada meu. E não sei vocês, mas sempre fico muito deprimida em meus aniversários, e especialmente nesse, eu me encontrava extremamente deprimida.
Não sei se por tudo isso, e se por conta da depressão usual, ou se juntou tudo e mais um filme que havia assistido há alguns dias antes…Mas nesse dia eu não queria ver nada e nem ninguém.
Mesmo assim, viajei para Curitiba com meu melhor amigo para me distrair e comemorar meus vinte e dois anos. E foi uma ótima viagem. Me diverti, conheci amigos virtuais de alguns anos, bebi uma cerveja e ri bastante. Conheci um lugar lindo, espaireci. Estrada sempre me fez bem, e essa viagem em especial, fez eu me sentir viva.
Mas na volta, tudo foi diferente.

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